Manuscritos digitais







11/06/2010 15:23
Onde foi que parei?
Estanquei em algum lugar
Mas não lembro o que havia nas margens
Não sei o que me deu
Nem sei por quê parei

Refaço caminhos
Mas já não encontro os grãos
Será necessário um novo caminhar
Meu Norte se transmuta...

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31/03/2008 22:28
Cochicho das Águas
No fim de semana, presenteei-me com um banho de sertão - onde a chuva alegra o espírito de toda uma gente! Margeando a pista, o verde da jurema que nunca esteve tão verde. Em Angicos, João viu pela primeira vez que os açudes também sangram. Sangram tudo, enquanto as pessoas bebem da sua esperança e esbanjam alegria. A água abre caminhos, encharcando a terra… lavando corpos e almas.

No Açu, tanta água que dá medo, mesmo para os maravilhados como eu. Água barrenta, uma mistura de tantas águas e sonhos. Tucunaré frito. Feijão verde. Paçoca. No rumo de São Rafael, névoa sobre o asfalto. Perco-me numa neblina de pensamentos e leveza. Ainda não é Jucurutu, quando montanhas e serras emolduram-me. Já não sou mais eu. Não sou mais nada. Baixo o vidro pra respirar… não, pra me entregar! Sou tudo aquilo!

Paro sobre o Piranhas. A correnteza forma caldeirões na água. Redemoinhos sob os meus pés levam embora minha razão. Chego a Caicó. Carne de sol. Lingüiça do sertão. Costela de carneiro. Arroz de leite. Capelas e muitas igrejas. Êxtase puro. Peço trégua pra sonhar. Deito-me com o cochicho da chuva no pé do ouvido.

Acordo com o som das vozes. Com o falar alto do caicoense. Seguimos no destino de Cruzeta. Quebramos à esquerda numa estrada de pedras, barro, riachos e mata-burros. Na Fazenda Margarida, encontramos um lindo pedaço de terra e de estórias. Quebramos o jejum com o que se quebra dieta: cuscuz, queijo de manteiga e bolo de banana.

Visitamos mais sangrias, com a lama nos pés e o encantamento no resto. Na panela, uma curimatã e suas ovas. Não cabiam palavras no Açude da Perninha. Emudecemos. Os peixes eram muitos e do contra. Nadavam contra e saltavam, fazendo saltar os olhos do bicho gente. Inundo-me. Fluido, sou mais água do que pessoa. Transbordo meninice.

Galinha caipira. Sono na estrada. Já é tarde de domingo, mas não é triste. No pé de várias serras, o Gargalheiras nos apresenta a sua imponência. Faz frio no alto. Café quente e rapadura. Promessas de volta. Vontade de não deixar. No caminho das águas, acaba-se descobrindo misteriosas estradas dentro da gente.

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26/03/2008 09:40
Velas do Desejo
Era antes das cinco horas quando me percebi acordado. O dia lá fora ainda estava escuro. Conseguia ouvir nitidamente três sons. O barulho de um ar-condicionado. Passarinhos presos em gaiolas. A respiração de uma mulher.

Acordado, também me percebi consciente. Revirei idéias. Lembrei do aniversário e não consegui mais ficar na cama. Levantei e andei pela casa. Fui ao banheiro. Senti o frio do chão sob os meus pés. Estava vivo realmente.

Busquei as horas no relógio em cima da pia. Já passava das cinco. Lembrei da minha ansiedade e do meu apego. Desci as escadas sem lavar o rosto. Pela porta do escritório via o céu ganhar cores. Tentei encontrar o gosto da minha própria saliva. Testava meus sentidos.

Sentei em minhas reflexões, tentando equilibrar-me entre o hoje e o amanhã, numa gangorra imaginária de inquietudes. Deitei os braços cruzados sobre a barriga. Senti os excessos do meu corpo e como pesam os pensamentos.

Já era dia e não estava mais acordado sozinho. A vida acordava junto comigo. Ganhei o primeiro beijo da manhã. Não havia mais tempo para adiar o que parecia tão certo. Soprando velas de desejos, decidi que seria feliz – nem que fosse só por hoje!

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18/10/2007 11:07
QUAL O SEU PORTO SEGURO?
O lugar mais seguro para todo navio é o porto, protegido por sua previsibilidade, segurança e conforto, mas navios não foram construídos para ficarem ancorados em portos. Seu destino é cortar oceanos, vencer tempestades, unir continentes, transportar pessoas, cargas e sonhos.

Assim como os navios, também temos nossos portos seguros, cujo aparente conforto e proteção nos tentam e ameaçam. Nos tentam porque os enxergamos como destino final da nossa viagem e nos ameaçam porque nos fazem abrir mão da aventura de viajar e descobrir o novo.

A decisão de levantar âncora e soltar as amarras que nos mantém seguros não é fácil. No entanto, a decisão de permanecer é tão difícil quanto à de partir – embora não pareça. Colada a uma escolha haverá sempre uma renúncia. Para cada sim, existirá sempre um não.

Nossos portos seguros estão por todos os lados e nos tentarão a vida inteira. Conhecemos, por exemplo, alguém que está casado há anos e para quem o casamento ou a companhia já não faz o menor sentido, mas que, ainda assim, prefere continuar na sua calmaria a aventurar-se em mares desconhecidos?

Conhecemos alguém que se frustra diariamente ao levantar e ter que ir a um trabalho que não inspira nem desperta o menor tesão, mas que, mesmo assim, não ousa quebrar a monotonia da rotina?

Quando me vejo como um navio, percebo que minha maior realização não está simplesmente em alcançar um porto e ficar por lá. Também não gosto da sensação de estar à deriva. Minha necessidade é estar sempre navegando, mas quero sentir, ao máximo, minhas mãos ao leme do meu destino.

O que mexe de verdade comigo é o prazer da viagem em si – com todas as suas variações entre calmarias e turbulências. Na vida, como num ato de amor, o que levo como lembranças é o que antecede o clímax.

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04/08/2007 07:00
EQUILÍBRIO
Nem ontem, nem amanhã – hoje. Nem deprimido, nem eufórico – sereno. Nem lento, nem veloz – constante. Nem fugaz, nem eterno – perene. Nem simples, sem complexo - natural. Nem sólido, nem gasoso – líquido.
Nem paixão, nem indiferença – amor.

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01/08/2007 21:39
BOA NOITE ANSIEDADE...
Minha amiga ansiedade, companheira de todos os dias, hoje não ocuparás meu leito. Meu sono será tranquilo e, de tão leve, minha noite será rápida! O medo do futuro, que te serve de alimento, perdeu o trem nesse fim de dia... estou aqui e agora! Não morra de tédio, minha amiga!
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18/06/2007 21:11
UM DIA A MAIS...
Não sei como foi o seu, mas o meu dia não foi dos melhores. O que me surpreende, pois imaginava que uma segunda-feira com chuvas não seria nada mal - numa cidade onde o sol abusa da luz o ano inteiro. Poderia ser uma segunda como as outras segundas. Inglês bem cedo. Respostas a e-mails. Reuniões com equipe. Contatos com clientes. Almoço. Inglês das crianças. Correria. Acupuntura. Volta pra casa. Yoga. Sono.

Mas, como disse, não foi uma segunda qualquer. Foi um dia complicado, de decisões difíceis e de surpresas chatas. Sem acupuntura e yoga. Mas foi apenas um dia. Amanhã será diferente... aposto nisso!

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27/04/2007 21:45
COMPRO OU NÃO COMPRO, DÁ STATUS?Ontem, enquanto almoçava com um cliente e discutíamos sobre as fragilidades do comportamento humano, surgiu em meio a conversa uma boa discussão em torno da necessidade de status. Lembrei-me imediatamente de um conceito que ouvi de um amigo – uma palavra, ao que me parece originada do latim, que significa estado.

Para nossa sociedade status está sempre associado à posição ou prestígio social de alguém. Além de curioso, o conceito do meu amigo sobre status ajuda-nos a dissecar nossa própria atitude frente a uma decisão que temos que tomar quase que diariamente e que quase sempre é motivada pelo impulso consumista – ou pelas razões mais inconscientes e desconhecidas: comprar ou não comprar.

O conceito do meu amigo é simples. Para ele, status pode ser entendido facilmente a partir de uma única afirmação. Portanto, uma forma de compreender até que ponto o status determina suas ações no cotidiano é refletir se:

- Você usualmente compra o que não precisa, com o dinheiro que não tem, para mostrar a quem não gosta, aquilo que você não é!

Se você se identificou com a hipótese acima não se assuste. Ela se encaixa perfeitamente no perfil de centenas de pessoas com as quais você cruza todos os dias.

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18/03/2007 15:57
VOCÊ VÊ AS BORBOLETAS? Eu as vi. Elas eram centenas de milhares... Amarelas, brancas, sozinhas ou em grupos disformes. Seu vôo não obedecia a nenhuma sincronia. Mas eu as vi... e me encantei! Elas voavam para o leste, como se abandonassem o verde da mata e buscassem o azul infinito do mar, ou a luz ofuscante do sol que acabara de nascer. É verdade também que algumas poucas voavam no sentido contrário, como voltassem para buscar algo que deixaram no caminho. Ou simplesmente porque não queriam seguir o fluxo!

Eu vi as borboletas, e quase não vi os carros. Por vários minutos, elas roubaram-me a atenção. Junto com seu vôo, fizeram voar também meus pensamentos - embora a estrada me exigisse atenção. Enquanto dirigia no sentido da praia, mais e mais borboletas cruzavam meu caminho. Pensei várias coisas! Mas pensei, sobretudo, se as centenas de outros motoristas que também estavam naquela estrada, naquele momento, também viam as borboletas e admiravam junto comigo aquele belo fenômeno da natureza.

Pensando nas borboletas, na simplicidade e na beleza singular do seu vôo, e como elas passariam despercebidas a tantos olhares, imagino quantas maravilhas (gente, lugares, bichos e coisas) passam bem à nossa vista, desafiam nossa sensibilidade e simplesmente, pelas mais variadas razões, deixamos de enxergá-las.

Eu vi as borboletas!!!

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24/02/2007 15:25
HOJE OU AMANHÃ?
Quando chegamos a uma determinada idade, imaginando que a vida é sempre resultado de uma equação lógica, que todos os fatos estão encadeados, que dois mais dois serão sempre quatro, onde a ansiedade e angústia da adolescência vão ficando cada vez mais para trás, eis que nos defrontamos com uma enorme dúvida, relacionada diretamente ao sentido da nossa própria existência: viver o presente, na forma em que ele se apresenta, ou investir nos planos e metas na esperança de se construir um futuro melhor pra nós e pra quem amamos?

Sempe pautei minha vida em torno de metas estabelecidas e projetos futuros de felicidade. Um amor. Um filho. Uma viagem. Um carro. Um curso. Um quilo a menos... de repente, perco um vizinho com 41 anos, que morreu de avc... Com ele morreram todos os seus sonhos!

Cada um, a sua maneira, que tente ser feliz... hoje, agora! O passado é nostalgia e o amanhã é só uma promessa! O que é indispensável lembrar sempre é que somos a materialização de nossas escolhas. Ao escolhermos ser felizes, já caminhamos bastante rumo à tão buscada felicidade!!!

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20/02/2007 10:18
HOMEM NÃO CHORA?
Acabei de ler ontem um livro narrado por uma figura especial chamada Armandinho do Bixiga. Ele conta a história de um dos bairros ícones da cidade de São Paulo, numa narrativa que parece estar conversando com a gente. O livro inteiro tem um conteúdo emocionante que me fez rir bastante e, ao final, naturalmente, cair no choro.

É com esse choro, ao qual muitas vezes me entrego, que gostaria de retomar hoje os Manuscritos, onde procuro refletir sobre o meu comportamento e a minha própria existência.

Certamente devam existir milhares, mas não conheço nenhum homem que chore tão facilmente como eu choro.

Ainda não descobri qual o gatilho emocional que faz disparar em mim o choro. Pois choro nas situações mais inusitadas. Já me flagrei chorando em propaganda de celular na tv. No cinema, já está quase virando rotina. Quando o filme me pega, choro até soluçar. Choro com um bom livro e, principalmente, com uma boa história. Quando apresentava jornal na tv, surpreendi-me chorando ao comentar uma reportagem - ao vivo!.

Choro de tristeza e choro também de felicidade. Choro no reencontro e choro na despedida. Já chorei de saudade e chorei por paixão. Mas nunca chorei de raiva (pelo menos nessa fase adulta!). Não me encabulo de ser um chorão. O que ainda, algumas vezes, constrangia-me um pouco é quando o choro vinha no meio de um discurso, de uma aula ou de uma palestra. E o constrangimento maior não era por eu estar chorando - a isso já estou acostumado - mas por ver que o meu choro estava provocando o choro também em outras pessoas.

No ano passado, durante um evento, onde cedi à emoção na frente de uma platéia de quase 200 pessoas, descobri, com a ajuda de uma amiga jornalista, que poderia enxergar no meu choro não uma fraqueza emocional, e sim uma virtude. Pois tinha descoberto nessa fonte de lágrimas uma das mais sinceras formas de expressão da minha alma.

Acho que só vi meu pai chorar uma vez na vida. Tenho amigos especiais que nunca os vi derramar uma só lágrima. Mas se nunca adotei pra mim aquela estória de que homem não chora, hoje é que não tenho a menor vergonha disso. Talvez essa tenha sido mais uma grande lição de Dona Haidê, a minha professora do amor. Ei...é melhor parar por aqui, senão vou acabar... vocês já sabem...!!!

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26/07/2006 11:38
TRÊS FIGURAS DA POLÍTICA
Vou fugir hoje das minhas viagens em torno do comportamento humano para entender um pouco o comportamento das figuras da política.

Do Sul ao Norte do Brasil, a campanha eleitoral já está nas ruas. Enquanto os milhares de candidatos estão por aí perseguindo seus votos, fico aqui digerindo meu almoço e refletindo sobre o quanto é curioso o fenômeno das eleições e da política em nosso país.

E para refletir sobre isso que chamo de fenômeno, coloco-me na pele de três importantes personagens de toda e qualquer eleição (e a ordem não importa tanto): o eleitor, o candidato e a figura do “cabo-eleitoral” – que em alguns partidos ganhou o apelativo nome de militante.

Vamos primeiro ao candidato. Quais as verdadeiras razões que levam alguém a se candidatar a um cargo eletivo? Não tenho nenhum amigo candidato, mas se tivesse lhe perguntaria: por que você é candidato? Fico imaginando o que poderia vir de respostas.

Mas o que penso ser a mais comum delas é a de que “sou candidato porque quero ajudar minha cidade, meu estado ou meu país”. Uma boa réplica seria perguntar: e até agora, o que você já fez nesse sentido?

Será que alguém diria que decidiu se candidatar porque quer fazer disso uma profissão? Afinal, a política e o futebol são os caminhos mais rápidos de mobilidade social no Brasil. Não quer dizer que são os mais fáceis. Mas o que dirão aqueles que já têm profissão e uma bem sucedida carreira?

Do ponto de vista financeiro, será que vale à pena ser candidato? Aposto que ninguém se expõe como candidato em busca do salário que o cargo possa lhe oferecer.

Acredito que muitos dos candidatos correm atrás do endeusamento que existe em torno dos políticos no Brasil. Não exatamente em torno dos políticos, mas em volta do poder. Numa região pobre e pouco produtiva como a nossa, o poder político torna-se ainda mais forte porque o Estado é mais poderoso do que o mercado. O Estado é o maior cliente e o melhor empregador. É nele, dentro de suas entranhas burocráticas, onde estão as melhores oportunidades pessoais. Com essas cartas na mão, os políticos tornam-se deuses terrenos, determinando - para o bem ou para o mal - o futuro de milhares de pessoas.

No último fim de semana, quando voltava à noite de uma viagem, vi às margens da BR 101, correndo risco de acidente, dezenas de pessoas e de carros parados que esperavam a carreata de algum candidato. Esses são os cabos-eleitorais. Mas quais as razões deles para estarem ali, naquela situação, quando poderiam fazer coisas bem mais interessantes? Eles, como todos os cabos-eleitorais, estão fazendo investimentos. Submetem-se a esses poucos dias de “trabalho” em troca da possibilidade de um emprego leve e um salário estável por quatro anos.

O papel do cabo-eleitoral, ou do militante, é convencer nós eleitores a votar naquele candidato que vai lhe assegurar as melhores oportunidades. Não há ideologia nem pensamento coletivo. Quando alguém lhe pede um voto para um político, ele só está querendo lhe dizer: salve-me se puder!

Ao eleitor comum cabe votar. Escolher o candidato. Seu critério de escolha também é variado. Sem fé, esse eleitor vai cada vez menos aos comícios. Acredita cada vez menos nos políticos. Boa parte só vai às urnas por obrigação. E muitos também fazem parte do coro “Salve-me quem puder”, cujo refrão é voto no que for “o melhor pra mim”.

Desde os 17 anos sou eleitor. Quando acreditava que poderia mudar o mundo numa eleição, pedi voto nas ruas. Até agora não me candidatei a nada!

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10/06/2006 22:28
INSPIRAÇÃO PRA VIVERBrincando dessa brincadeira de escrever os Manuscritos, descobri algo que me deu uma certeza. Não conseguiria jamais ser um cronista diário. Digo isso porque só consigo transformar pensamentos em palavras movido por inspiração. E inspiração pra escrever não é algo que encontro todo dia.

Pra falar a verdade, não enxergo nada melhor do que fazer tudo de forma inspirada. De maneira apaixonada. Quando não é assim, sinto o peso da obrigação. E fazer algo por pura necessidade, sem a vontade da alma, é para mim algo difícil e penoso – quase uma tortura.

Lembro de um amigo na adolescência de quem ouvi muitas vezes: - “Putz! Tenho que ir lá na casa da namorada hoje bater o ponto!”. Não conseguia entender como aquilo era possível. Como se namorar fosse algo feito por imposição. Passando os anos, fui vendo, já sem surpresa, que boa parte das pessoas que conheço vive batendo o ponto – seja nas relações com o outro, no trabalho ou em quase tudo na vida. E quantas vezes já não me flagrei na mesma situação?

Será que não poderia ser diferente? Será que não poderíamos ter ao nosso redor apenas as pessoas as quais queremos que estejam lá, e que também nos querem por perto. Imagine ainda acordarmos todos os dias pra trabalhar empolgados pelo trabalho que nos espera. Será que desejar isso é sonhar demais?

Cada vez acredito mais que são nossas paixões e inspirações que nos mantém vivos. Se não temos uma boa razão pra acordar é melhor permanecer dormindo. Quando são as paixões que nos tiram da cama, o dia torna-se muito mais empolgante e inspirador. As tarefas chatas e os relacionamentos insossos irão sempre existir. Nosso desafio é percebê-los e não deixar que se transformem em âncoras de frustração e angústia. Nessas situações, uma ótima saída é procurar beber a inspiração em outras fontes.

Minha inspiração mora onde mora a vida – nos desejos, nos sentimentos e nas histórias maravilhosas desse bicho chamado gente.

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04/06/2006 22:11
TALENTO, SONHO E OPORTUNIDADENão sei se podemos desenvolver determinados talentos ou se já nascemos com eles. Penso em talento como aquela habilidade que temos pra fazer algo bem feito. Algumas vezes, mais do que bem feito – perfeito. Por falar nisso, não conheço ninguém que tenha tido sucesso profissional na vida sem ter talento. Pode ser talento pra cantar, pra fazer cálculos, pra escrever, pra se relacionar ou pra vender. Talento pra pilotar, pra encenar e pra fazer gols. Talento pra brigar, pra curar, pra desenhar ou pra liderar.

Se o sucesso é fruto do talento, nem todos que têm talento têm a garantia do sucesso. Há gente, muita gente, que nasce e morre com o talento guardado ou escondido em algum lugar. Essas pessoas sequer têm a consciência do talento que possuem. Talvez por nunca terem tido a chance de despertá-lo.

Embora acredite que, nato ou adquirido, todas as pessoas possuem um talento, até hoje ainda não descobri o meu. Com a minha insistência, e falta de vergonha, pelo menos descobri os talentos que me faltam. E como eles são muitos.

Um dos talentos que nunca tive, por exemplo, foi o de desenhar. Hoje não sofro por isso, mas na infância era quase uma tragédia. Especialmente, por ter Luiz Carlos – ou Cacau - como colega de classe. Estudávamos num colégio público em Angicos e ele chamava atenção quando tinha um lápis nas mãos. O menino desenhava tudo com muita perfeição. Enquanto seus traços ganhavam qualquer concurso de desenho, eu mal desenhava aquela casa que todos desenham.

Os anos se passaram e nossos passos percorreram caminhos diferentes. Passamos muito tempo sem nenhum contato, até que o reencontrei durante uma reportagem em Natal. Estava indo para uma entrevista num dos condomínios mais luxuosos da cidade...E quem me recebe na entrada do prédio? Ele mesmo, Cacau. Nos reconhecemos na hora e fizemos uma boa festa. Cacau, o craque no desenho, era agora porteiro de edifício.

O que faltou a Cacau, certamente, não foi talento para o desenho, pois isso ele tinha de sobra. O que o desenhista Cacau não teve foi oportunidade. E não me refiro somente a oportunidades de estudo ou trabalho. Isso também deve ter acontecido com ele, mas falo de oportunidade pra sonhar, pra imaginar um mundo diferente, o mundo que desejamos para nós. Quando sonhamos com o futuro, construímos cenários e, até inconscientemente, vamos estabelecendo metas pessoais e guiando nossas ações por elas.

Pra estimular esses sonhos, há uma pergunta que adoro fazer a crianças: o que você quer ser quando crescer? Experimente responder!

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27/05/2006 21:58
AMOR É VERBO
Nada mais me inspira a escrever do que uma boa leitura. Enquanto leio, consigo gargalhar sozinho e já algumas páginas à frente cair num intenso choro silencioso. Certas leituras desarmam minha racionalidade, afloram minha emoção e me permitem refletir e escrever com o que mais gosto: meu humano coração – cheio de certezas e dúvidas, alegrias e tristezas, sonhos e frustrações, amores e paixões.

Acabo de ler o último livro de Danuza Leão, Quase Tudo. Não tinha muitas referências sobre a autora. Li as memórias de Danuza sem ter nenhuma representação formada sobre quem ela poderia ser. Foi melhor assim. A autora revela-se como gente, e não como mito, expondo todas as contradições e faces de uma mulher, que poderia ser muito bem minha mãe, avó ou esposa – ou poderia ser você. Afinal, somos todos muito parecidos.

Gosto de começar a escrever a partir de um título. Acho que isso me ajuda a não sair do trilho. Não acredito no amor de palavras. Ninguém dá amor - o amor não é substantivo. A gente pode dar coisas como carinho, atenção, respeito e tesão. Por essa razão, digo que amor é verbo – condicionado, assim, à ação de amar. E na vida, quando encontramos as pessoas que amam de verdade não é difícil percebê-las, embora, muitas vezes, não reconheçamos isso. Ou só “cai a ficha” quando já é tarde demais.

Outro dia, sozinho em Natal, e naquela correria, acabei parando num lugar pra comer, onde o almoço custava apenas R$ 4,00, com comida à vontade. O lugar era muito simples, e os pratos, com tempero caseiro, eram uma delícia. Disse isso à dona, que estava no caixa, e ela de pronto me respondeu com a maior simplicidade do mundo: – é porque é feito com amor, meu filho!

Penso agora nas pessoas que conheci para identificar aquelas que amam na rotina do seu dia-a-dia. Não podendo ser diferente, lembro naturalmente da minha mãe e reconheço nela todos os perfis de uma pessoa que amava de fato, sem rodeios. Acredito, pois, que amar é, sobretudo, dar sem esperar retorno. Amar é doar-se ao outro. Dona Haidê sempre foi assim – com todos e com tudo. Com os parentes mais próximos (filhos, marido e irmãos), seu amor se refletia numa quase devoção. Sua vida foi repleta de sacrifícios pessoais, sempre em nome da felicidade dos que ela amava.

Se o seu amor podia ser sentido bastando estar ao lado dela, eu, como filho, sentia-me todos os dias a pessoa mais amada do mundo. Era como se o seu coração, ou a sua alma, exalasse sempre uma sensação acolhedora, de cuidado e proteção. E isso não era apenas com as pessoas. Tudo que ela fazia trazia os sinais do seu amor. Seus bolos tinham um sabor único e especial. Todos os pratos – doces ou salgados - preparados por ela eram perfeitos.

Quando ela costurava, era reconhecida pelas belas camisas que fazia. Seu crochê era disputado. Tudo que passava por suas mãos era rico em detalhes e perfeição.

Lembro ainda que na nossa casa em Angicos, no sertão potiguar, funcionava uma espécie de hospital vegetal. Muita gente levava para ela plantas que estavam doentes ou simplesmente feias. Alguns dias depois elas ganhavam vida, e logo estavam exuberantes. Vi muitas vezes mamãe conversando com suas plantas, enquanto as adubava ou as regava.

Quando algum familiar adoecia, ou enfrentava qualquer tipo de problema, lá estava ela compartilhando do sofrimento e ajudando da forma que fosse possível. Dona Haidê morreu aos 64 anos de derrame cerebral. Eu tinha 19 anos e sofri demais com a perda. Hoje percebo o privilégio de tê-la tido como mãe. Uma professora do amor. Do seu exemplo, aprendi grandes lições da vida. Mas o que mais gostaria era amar como ela amou.

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18/03/2006 18:59
Uma estátua viva. Viva?!Não consegui vê-lo por muito tempo. Não sei o seu nome ou qualquer coisa a seu respeito. Na verdade, foi um olhar super rápido, de lado, meio que de relance. Mas foi suficiente para eu ver seus olhos. Neles encontrei algo que vi poucas vezes na vida. Havia naquele olhar estático uma mistura de pânico e satisfação. Seus olhos sequer piscavam, ignorando a tempestade de luzes que iam ao seu encontro.

Eram cerca de seis horas da tarde, quando estava indo buscar minha esposa no trabalho, e me surpreendi com aquela cena. Um homem, aparentando seus quarenta e poucos anos, estava sentado bem no centro da faixa do meio da avenida Salgado Filho - a mais movimentada de Natal. Imóvel, ele estava de braços e pernas cruzadas olhando fixamente para as dezenas de carros que, por pouco, não o atingiam.

Passei ao seu lado, desviando no último segundo. Surpreso e assustado, minha primeira reação foi a de ligar para a polícia, na esperança que alguém pudesse correr até ele e tirá-lo dali. Não pensei em parar. Não tinha como parar. Liguei para a polícia, mas ninguém atendeu.

Presenciar aquele momento foi impactante. Não consegui fugir das imediatas reflexões. O que o levou a sentar ali, desafiando a sorte, a morte – ou a vida? Quais as suas razões? Será que há razão num instante desse? Talvez fosse um louco, que acabara de fugir do hospício a poucas quadras de distância. Ou talvez fosse simplesmente alguém querendo abreviar algum tipo de dor ou sofrimento.

Imaginando ainda se ele sobreviveu, refleti sobre nossa própria sobrevivência - sobre o tempo que nos resta. Quanto tempo ainda teremos nesse estado de ser e estar de consciente? Os pensamentos me levam de volta ao homem sentado de frente para o trânsito. Não acredito que fosse apenas um suicida. Por quê e pra quê tentar morrer daquele jeito? Ou estaria tentando chamar a atenção de alguém, ou de todos nós?

Com essas reflexões, lembro de Schopenhauer:“Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça(...) No final, ela vence, pois desde o nascimento esse é o nosso destino e ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que vai estourar”.

Enquanto respiro, descubro-me vivo. Enquanto escrevo, descubro-me humano

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05/02/2006 12:25
Branco no preto
Gosto de usar barba por diversos motivos. Com pelos no rosto sinto-me com o espírito rebelde – quebrando convenções e perguntando calado a quem me olha surpreso o que isso importa. A barba ganhou em mim o significado de rebeldia a partir das primeiras leituras comunistas na adolescência, quando os barbudos (cubanos, argentinos e brasileiros) eram meus mitos – e, ainda, os de muita gente.

O desejo de ter uma farta barba negra crescia à medida que não tinha permissão para usá-la. Começou no Exército. Lá só era possível usar bigode, e ainda assim, quando me formasse oficial. A partir daí, veio a imposição do vídeo. Nenhuma TV onde trabalhei queria um barbudo em suas telas. Até tentei arriscar um “charmoso” cavanhaque, argumentando aos chefes que passaria mais maturidade... Sem chances!

Pois bem, agora livre e desimpedido para usar a bela e farta barba negra, fui surpreendido por uma pegadinha do destino. Depois de quase dois meses cultivando e acompanhando diariamente o crescimento dos pelos, como um agricultor pajeando sua lavoura. Descubro insatisfeito que a barba está lá. Farta como eu desejava, mas não somente negra.

Com uma semana sem lâmina, meu rosto já estava cheio de pontinhos pretos...E também brancos. Coisa que a gente não percebe, quando está sempre com a “cara” lisa. Os pelos foram crescendos e eu me surpreendendo com a bi-coloração do meu queixo. Um, dois, três...Até que tentei contá-los – os alvos – mas sem sucesso. Pareciam infinitos e desisti da tarefa.

Depois de dois meses barbudo, eles se mostraram abertamente, privilegiando-se do natural contraste com os pretos. Os pelos brancos, definitivamente, conquistaram e vão ampliando seu território sobre minha epiderme. Tal avanço me provocou um olhar novo e mais atento sobre minha situação capilar e seus significados. Acabei descobrindo, por exemplo, que no peito eles já são onze. Daqui a pouco também serão muitos. E não vai demorar muito para que os brancos sejam maioria na cabeça.

Nessas horas de reflexão, encontro no espelho aquela imagem, fria e objetiva, percorrendo seu olhar sobre mim, como se estivesse me s(a)caneando por inteiro. Dura e verdadeira como sempre foi, ela sentencia – É meu velho, seu tempo está passando! Vais ficar aí, pensando em como disfarçar a passagem dos anos? Não seria melhor tentar viver e aproveitar cada segundo que lhe resta?!

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09/01/2006 21:31
É HORA DE CHUTAR O BALDE?Por uns três anos seguidos, dei várias palestras para dentistas e médicos ajudando-os a aplicar os conceitos de marketing, numa tentativa de transformar seus consultórios em bons negócios. O conteúdo das palestras para os dentistas não era muito diferente do que apresentava aos médicos, e o objetivo final era fazê-los obter mais rentabilidade na profissão.

A avaliação das palestras era sempre boa. Ao final, médicos e dentistas, na maioria das vezes, elogiavam e agradeciam os “toques” e orientações. Até que um dia um médico obstetra me chamou a atenção com uma observação. Com muita objetividade, ele disse-me que o que estava precisando naquela hora não era simplesmente ganhar mais dinheiro, mas ter uma vida com qualidade.

Por que isso? Alternando plantões, passando horas no consultório, saltando de um hospital para outro, esse médico, com pouco mais de 15 anos de profissão, e um bom dinheiro no bolso, passava até três dias sem ver os filhos e a esposa – mesmo morando em Natal, uma cidade linda e relativamente pequena.

Lembrei desse episódio agora, porque, conversando com dois amigos hoje – um deles meu cliente – eles disseram-me, com todas as letras, que não estão agüentando a vida que têm. Embora tenham tudo o que muitos desejam. A explicação para esse drama, comum a bastante gente, encontro na tese de um outro amigo. Ele diz que somos reféns da estrutura que criamos.

Na explicação desse amigo, com a qual concordo, vamos construindo ao longo da vida uma estrutura de necessidades que nos consome, oferecendo-nos prazer efêmero como se fosse felicidade.

A tv não basta ter apenas controle remoto, precisa também de uma enorme tela plana. Cinco canais de tv aberta já não são suficientes para os 60 minutos que passamos no sofá. Precisamos de pelo menos uns 80. O celular não é um telefone se não tocar mp3 e gravar vídeos. O perfume não basta ser francês, precisa ser "daquela" marca. O carro..ihh, aí nem se fala!

Ouvindo a história e as angústias do amigo-cliente, sugeri que ele pusesse num papel as cinco coisas que mais gosta de fazer. Na hora, ele percebeu que há algum tempo está bem distante delas. Aos dois amigos perguntei: quanto você realmente precisa pra viver uma vida feliz, fazendo o que gosta? A resposta veio para eles, e para mim, como uma surpresa. Muito menos do que ganham hoje.

Se algum dia pudéssemos levar essa reflexão à prática, talvez acabássemos trabalhando menos e teríamos mais tempo para nós mesmos e para, quem sabe, poder estar bem perto de quem amamos.

Tão importante quanto saber ganhar, é saber gastar o dinheiro que ganhamos. Mas isso é tema para um outro manuscrito!

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31/12/2005 11:40
Metas e planos pra outra metadeEstamos a menos de 24 horas para entrar num novo ano. Como em todo fim de ano, recebi nos últimos dias dezenas de mensagens de paz, saúde e prosperidade. Acho que é natural a gente desejar aos amigos aquilo que gostaria de receber. Por isso retribuí muitas dessas mensagens desejando também sabedoria. Sabedoria pra podermos separar o certo do errado, pra nos mostrar o caminho que devemos seguir e pra nos ajudar a tomar as melhores decisões.

Eu, que gosto tanto de metas, acordei nesse 31 pensando exatamente no que pretendo alcançar em 2006. Pra mim, sempre foi comum o estabelecimento de metas para conquistas tangíveis – talvez seja assim também pra muita gente. Trocar de carro, fazer uma viagem, acumular um determinado montante de dinheiro, comprar uma casa nova, quitar todas as dívidas... Ou simplesmente ter alguém ao lado compartilhando uma mesma história de vida! Mas dessa vez está sendo diferente.

Claro que tenho definidas minhas metas materiais. Mas o diferente hoje é que estou disposto a encarar outros desafios. O principal deles é viver cada dia como se fosse o último. Isso não quer dizer que estou querendo chutar o balde ou deixar as responsabilidades de lado, sem pensar no amanhã. O que pretendo é fazer é me impor uma rotina diária que me dê mais prazer em viver.

Levando em conta as estatísticas do IBGE, e se for afortunado, já vivi metade da vida – uma vez que a estimativa para o homem brasileiro é viver 65 anos. Consciente disso, estico o prazo das metas e pergunto-me: o que quero pra minha outra metade de vida?

Não tenho uma resposta muito bem definida. Não fiz ainda tantos planos. Mas tenho como certos alguns objetivos. Quero amar mais. Quero, por exemplo, estar mais perto de quem gosto de verdade, dos bons e grandes amigos. Quero não sofrer de tantas doenças. Quero crescer espiritualmente. Quero poder ajudar quem necessita de ajuda. Quero poder ajudar a mudar o que pode ser mudado. Quero também humildade pra aceitar aquilo que não pode ser mudado. Quero respeitar mais as pessoas. Quero ter mais paciência e tolerância.

Cada novo dia, como cada novo ano, é o início de um novo ciclo. Um momento oportuno pra decidirmos pra onde queremos ir e como podemos chegar lá. Se pretender viver cada dia como se fosse o último, não posso deixar as decisões de hoje pra amanhã. A hora é agora. A felicidade nos bate à porta. Cabe a nós deixá-la entrar.

Feliz ano novo!!!

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03/12/2005 21:55
A BOMBA QUE IGNOREI
Eram cinco horas da tarde de ontem, sexta-feira, quando o celular tocou. O recepcionista da oficina mecânica, onde eu havia deixado meu carro para que consertassem “pequenas coisas” - 40 minutos antes - pedia-me que fosse até lá novamente.

Josemar, que é baixinho, casado e deve ter uns 30 anos, recebeu-me com um sorriso estranho no rosto e chamou logo Adriano, um dos mecânicos da oficina. Adriano trazia nas mãos uma peça amarela de plástico e cheirando a gasolina. Fui logo pensando: lá vem uma “facada”.

O recepcionista aproximou-se de Adriano e, quase que em coro, os dois falaram que eu tinha tido muita sorte por o carro – um Pólo 99 – não ter explodido enquanto eu dirigia. Simplesmente isso: explodido! A peça amarela era na verdade a carcaça retorcida da bomba de gasolina. O dispositivo elétrico entrou em curto, ficou esturricado e ainda derreteu parte do plástico. Se houve curto, deve ter havido fagulha. Se o plástico ficou contorcido, houve calor. E se a bomba de gasolina fica dentro do tanque, o que ninguém da oficina entendia é por quê o carro não havia explodido.

Aquela notícia me tirou de órbita. Nos segundos seguintes, enquanto os mecânicos falavam de orçamento e especulavam sobre o que poderia ter provocado o curto, minha cabeça trazia-me imagens imediatas da minha família. Pensar neles e na possibilidade bem próxima de um terrível acidente, fez de cara sentir-me culpado. Na hora, lembrei também da notícia que recebi pela manhã, de que Davi, um amigo de infância, com 36 anos, havia morrido do coração. E aí veio a inevitável reflexão de como somos chama. Uma chama que pode apagar a qualquer instante.

Decidi escrever hoje, depois de dois meses de ausência, e exatamente contando essa história porque tenho pensado muito sobre a administração do meu próprio tempo e o que venho fazendo da minha vida. Nos compromissos desmarcados ou nas prioridades adiadas, sempre encontro o argumento do excesso de trabalho e da falta de tempo como justificativa para tudo. Mas será que a falta de tempo para levar o carro a uma oficina para revisão, poderia justificar um acidente de conseqüências imprevisíveis?

Não sou muito religioso, no entanto a primeira coisa que fiz ao voltar pra casa foi agradecer silenciosa e profundamente a Deus. O que mais de interessante encontro nessa reflexão é que se o acidente tivesse acontecido, não teria sido por falta de avisos. Isso mostra que na nossa vida - seja no trabalho, no casamento, ou até com o nosso corpo – sempre acabamos ignorando os avisos e alertas que nos chegam de que algo não vai bem. Talvez façamos isso na esperança de que os problemas se resolvam sozinhos, afinal o amanhã será sempre um novo dia. E esse talvez seja o nosso maior erro.

Não devemos sofrer por problemas futuros, mas é nossa obrigação enfrentar de frente os nossos problemas de hoje - antes que eles se tornem uma bomba de gasolina prestes a entrar em curto e jogar pelos ares nossos sonhos e paixões. Em qualquer situação, quando acender a luz vermelha, é bom não ignorá-la. Milagres não acontecem toda hora!

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03/10/2005 09:32
ORGULHO E VAIDADE
Quebrando a rotina de "blogar" aos domingos, escrevo nessa segunda-feira (com mais de uma semana de atraso) por uma série de razões. Uma dela é que minha casa está sendo reformada. Quem já morou em uma casa em reforma sabe do que estou falando.

Duas palavras têm me chamado à atenção nesses dias. Considero-as muito parecidas, mas sei que têm significados diferentes. As palavras às quais me refiro são: orgulho e vaidade. Tentarei encontrar seu sentido provocando-me à reflexão, pois elas têm muito a ver o que tenho sentido nas duas últimas semanas. Por isso veio a idéia de escrever sobre o tema.

Já vivi o tempo em que as duas palavras – o orgulho e a vaidade – tinham um tom bastante pejorativo. Ninguém dizia que alguém era orgulhoso ou vaidoso, quando queria fazer um elogio. A vaidade chegou a ganhar até o status de estar entre os pecados capitais. Tenho feito esforço para trabalhar em mim, e em minha família, o valor e os princípios da humildade, acreditando sempre que não somos melhores do que o outro. Não concordo nem aceito a arrogância, mas será que ser vaidoso ou orgulhoso é tão ruim assim?

Começarei a reflexão com o que me vem à cabeça sobre a vaidade, ou o ser vaidoso. Acho que para alguém ser vaidoso tem que gostar de si mesmo. Não conheço ninguém que possa se considerar vaidoso que não tenha uma boa auto-estima. Gosto de me sentir bonito. Gosto de ter uma empresa bonita. Gosto de ter meu trabalho reconhecido como bom. Gosto de ouvir dos meus filhos que sou “o melhor pai do mundo”. Sendo vaidoso, policio-me muito pra tentar ser quem sou. Minha vaidade pára quando entra em conflito com meus valores de vida. Não sacrifico o que considero importante em nome de uma vaidade que apenas tenta mostrar aquilo que desejo ser. Não invisto na vaidade que se confunde com status.

Com relação ao orgulho, nossa sociedade impõe à palavra significados diferentes, dependendo da situação. Ter orgulho de ser brasileiro é algo maravilhoso. Mas quem nunca ouviu aquela expressão “fulano é muito orgulhoso”?! Acredito que sou orgulhoso - talvez até mais do que vaidoso! De uma maneira simples, acredito também que ter orgulho é valorizar o que diz respeito a si mesmo. Tenho orgulho, por exemplo, da família que me recebeu nessa vida. Tenho orgulho dos caminhos que percorri e da profissão que escolhi. Tenho orgulho da família que estou ajudando a construir. Tenho orgulho em gostar de escrever.

Ter vaidade e orgulho não faz mal algum, desde que isso seja percebido como um combustível à auto-estima . Ser vaidoso ou orgulhoso é positivo, desde que isso lhe impulsione à frente, sem precisar atropelar ninguém. Por que isso tem mexido comigo? Porque ultimamente tenho vivido excelentes momentos de satisfação pessoal e profissional. Podem não ser grandes coisas visto à distância, mas para mim têm valido muito.

Como já espalhei pra Deus e o mundo, no dia 22 de setembro estava em Salvador em busca de troféus para os clientes da Oficina da Notícia, no Prêmio Aberje Nordeste. Tivemos três, dos onze que levamos à disputa, premiados como os melhores trabalhos em sua categoria. Pra minha surpresa, fui eleito pelo júri da Aberje como a Personalidade do Ano em Comunicação Empresarial do Nordeste. Esse é um troféu único e que, além de me deixar envaidecido, encheu-me de orgulho por trabalhar com uma equipe de profissionais tão especial na Oficina da Notícia.

Fechando o mês, tivemos ainda o lançamento da 11a edição da Revista Empresas e Empresários. A revista é um projeto no qual estamos envolvidos há sete anos e que é sinônimo de êxito. Essa nova edição saiu melhor e maior do que as anteriores. Mas essas são as satisfações profissionais.

Hoje, vaidoso, não mais invejo quem corre no Bosque dos Namorados ou nas ruas de Natal. Estou entrando em forma e já consigo correr tranqüilo uns cinco quilômetros em 30 minutos. Pra me deixar ainda mais orgulhoso, fiz o teste ergométrico e meu resultado foi o melhor possível. Tenho um VO (Volume de oxigênio) 62, quando atinge-se o nível de atleta a partir dos 58. É isso... cheio de orgulho e vaidade, vou seguindo meu caminho e esperando que esses sentimentos possam me ajudar a levantar quando tropeçar e cair nessa estrada vida.

Até domingo...ou até qualquer hora!

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18/09/2005 16:33
QUAL É O SEU NOME?
Num tempo em que as nossas vidas, mais do que nunca, estão atreladas às nossas atividades profissionais, com as empresas onde atuamos se incorporando como se fossem nossos próprios sobrenomes - Francisco da Petrobras, Luiz da Claro, Pedro da Microsoft ou Rilder da Oficina – provoco-me a uma reflexão: qual o significado do meu nome e o que ele representa para a minha identidade?

Começarei da escolha. O nome que trazemos da maternidade é uma das coisas da vida onde nada podemos intervir. Alguém, por alguma razão, em algum tempo, decide antes mesmo de nascermos que devemos ser chamados assim ou assado e pronto, está feito! Foi assim que nasci Rildeniro.

Meu nome é derivado de uma seqüência familiar de seis nomes criada por meu pai. Da mistura de Rilin (seu apelido) com Haidê (a minha mãe) saiu Rildê, minha primeira irmã – daí pra frente foi fácil, vieram Rildete, Rildécio, Rildeci, Rildenir e Rildeniro. Fico pensando se a prole fosse ainda maior...

Imaginem um bebê em casa com um nome enorme (nove letras e quatro sílabas). Os primeiros apelidos não demoram a aparecer. Se fosse Ubirajara, chamaríam-me de Bira. Se fosse um Gutemberg, seria Guto, Gutinho ou Berguinho. Se fosse Valdeneide, certamente ganharia um Val ou um Neidinha. Mas nasci Rildeniro, e o primeiro nome que minha memória me traz é o carinhoso Nirinho. Assim, fui chamado por muitos anos, especialmente pela parentada. Hoje, só alguns tios e primos distantes ainda repetem o Nirinho. Cada vez que ouço, sei que vem de alguém especial.

Crescendo, o Nirinho se transformou em Niro. Esse é um nome que adoro, pois significa pra mim infância e intimidade. Fui por muitos anos Niro. Só Niro – um nome curto, simples e objetivo. Quando fui morar em Angicos, o Niro ganhou um complemento, quase sobrenome. Virei, então, Niro de Rilin ou Niro de Haidê. Na pequena cidade do interior é sempre assim: João de Doca, Marcos de Sebastião, Kelson de Zé Raposa, Genésio de Risonete... Poucos me chamam de Niro, exceto meus irmãos, alguns amigos de Angicos, meus vizinhos da adolescência e minha esposa (que me conheceu Niro em Angicos).

Da minha irmã Rildenir, ganhei o Niroca – que sempre vinha acompanhado de uma musiquinha (Niro, Niroca, trocou a mulher por uma pipoca!). Só ela ainda me chama assim e só eu a chamo de Didi.

No Salesiano, em Natal, graças à chamada de presença na sala, voltei a ser Rildeniro. Foi também Rildeniro quem entrou em Jornalismo, na UFRN. Portanto, quando ouço o “original” já sei que vem de algum colega do colégio ou da faculdade. Ou ainda, quando levo bronca da mulher.

Aos 19 anos, no Exército, meu nome virou número. No NPOR eu era o Trinta e seis. O Rildeniro ficou como nome de guerra, mas o que marcou mesmo foi o Trinta e seis. Entre os amigos de quartel, ainda nos tratamos pelo número.

No meu primeiro trabalho, o nome de nove letras foi pro beleléu. Ele não cabia no jornalismo. Por “sugestão” do chefe, o exclusivo Rildeniro sofreu uma contração e fui transformado em Rilder. Na televisão, Rilder ficou público e se transformou rapidamente no meu nome profissional. Para a maioria das pessoas, é dessa forma como me apresento hoje: Rilder Medeiros.

Mas tive também outros nomes. Minha filha, quando começava a falar, chamou-me do inédito Mãinho. João Paulo, também ensaiando as primeiras palavras, chamava-me de Papito. O moleque ainda fala assim, mas só quando quer ganhar algo.

Quando já não esperava nenhum novo nome, afinal apelidos nessa época da vida são cada vez mais raros, surpreendi-me com um terrível e respeitador Seu Rilder. É assim que Ninha, a copeira da Oficina, insiste em me tratar.

Refletindo, com a distância que o tempo me oferece, percebo que meus muitos nomes representam, sobretudo, às relações que construí com o outro e com o universo, nesses trinta e três anos. E é dessas relações, creio, que vou construindo minha própria identidade.

E você, como se chama?

Até qualquer hora!!!

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11/09/2005 07:23
Inveja
A rotina de escrever para o blog traz uma série de curiosidades. Uma delas é a escolha do tema. Passo a semana inteira pensando nisso. Mal acabo de postar um texto e já fico imaginando qual será o próximo. Dessa forma, passam muitas idéias pela cabeça. Até ontem à noite, quando jantava num shopping, sabia que iria escrever sobre um assunto, mas ao chegar em casa e começar a mexer em alguns livros para doá-los à biblioteca de Angicos surgiu-me uma nova idéia. E é sobre ela que escrevo agora: a inveja.

No seu livro, da série sobre os pecados capitais, Zuenir Ventura trata a inveja não apenas como o desejo humano de ter o que outro tem, mas como a vontade de que o outro não tenha aquilo que tem. Acho que já senti os dois tipos de inveja, e a última é pior do que a primeira. Estar consciente sobre minhas emoções e sentimentos tem sido um passo muito importante na busca pelo crescimento pessoal. Quando reflito sobre o que estou sentindo, acabo combatendo muitos dos meus sentimentos negativos, como a inveja, da qual fala Zuenir, por exemplo.

Sinto diariamente a inveja “boa” e não a combato. A partir das minhas vontades, vou estabelecendo as metas e objetivos para a vida. Desejo ter um monte de coisas, as quais não tenho – a maioria de coisas bem simples, que os amigos que invejo nem se dão conta da sua importância pra mim, nem para eles.

Invejo, por exemplo, os amigos que podem ver e abraçar a mãe todos os dias. Invejo os que têm um pai, com quem podem se aconselhar e trocar confidências. Invejo aqueles que passam por mim correndo, enquanto caminho no Bosque dos Namorados. Invejo a rotina dos aposentados. Invejo quem pode criar uma galinha no quintal. Invejo o pescador de Barra de Cunhaú, que não precisa alugar casa, nem encher a mala do carro, para ir pescar na beira da praia. Invejo a paciência de quem tem mais de dois filhos. Invejo quem consegue ler um livro por semana. Invejo quem escreve livros. Invejo a inspiração dos poetas. Invejo quem mora perto do trabalho. Invejo quem consegue assistir o Jô. Invejo aqueles que almoçam em família. Invejo quem sabe tocar violão – ou qualquer outro instrumento. Invejo quem pára pra ouvir música. Invejo a inocência dos meus filhos. Invejo os que viveram em outras épocas. Invejo quem vive pra ajudar os outros. Invejo os quem amam demais. Invejo os amigos que têm fé. Invejo aqueles que descobriram o caminho da felicidade.

Assumo minha inveja e lembro agora de uma frase que li num pára-choque de caminhão quando era criança e da qual não esqueci: “Não tenho tudo que quero, mas amo tudo que tenho”.

Até domingo!

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04/09/2005 16:10
Uma paixão e uma profissão<
Não faz uma semana que fui abordado por uma adolescente pré-vestibulanda que me perguntava sobre o que eu achava do jornalismo. Minha resposta foi rápida e boba. Se você pensa em um dia ficar rica, desista – foi o que respondi. Mas como tenho a mania da reflexão, as palavras que saíram da minha boca ficaram ecoando por horas e dias em meu juízo.

O pequeno diálogo com aquela moça, ainda indecisa sobre seu futuro profissional, fez-me pensar sobre as razões das minhas próprias escolhas. E cheguei a pelo menos uma conclusão: não foi pra ficar rico que escolhi o jornalismo.

Hoje, anos depois da opção profissional que fiz, e já um pouco distante dela, consigo enxergar com muita clareza que a minha escolha foi movida por algo tão magnífico quanto a própria vida. Escolhi o jornalismo porque tinha paixão.

No segundo ano na universidade, entrevistado para um jornal do Campus, disse que queria mudar o mundo, quando o repórter perguntou-me sobre meu sonho. Era esse o meu sonho e eu acreditava que poderia torná-lo realidade através do jornalismo, travando batalhas diárias contra tudo que considerava errado e usando como armas minha caneta e um bloco de papel.

É curioso como a gente quase nunca pensa sobre as reais razões que nos motivam a tomar certas decisões na vida. Apaixonado e jornalista romântico, usei muito mais que canetas e papéis na tentativa de tornar sonhos em realidade. Usei a voz. Usei meu corpo. Usei meu tesão. Usei minha alma.

Da passagem pelo jornalismo, carrego comigo excelentes histórias - de personagens fantásticos. De tudo que fiz, o que mais me deixou apaixonado foi o jornalismo comunitário. Com simples reportagens, conseguíamos, surpreendentemente, transformar a vida de pessoas. Desse jornalismo, coleciono lembranças inesquecíveis.

Mas depois de passar quinze anos trabalhando em diversas funções e em diferentes redações, foi que pude enxergar de forma muito límpida que a paixão de querer transformar as coisas pra melhor continuava viva e não precisava ficar restrita à prática do jornalismo - mesmo o comunitário.
Num daqueles dias, quando as barreiras nos parecem intransponíveis e quando a frustração quer vencer as expectativas, tive a felicidade de encontrar alguém que me falou algo extremamente marcante: se queres mudar o mundo, comece mudando você, sua casa, mudando sua rua, seu bairro, sua cidade.

Embora tenha metas e sonhos definidos, tento viver hoje um dia de cada vez. Tento tirar de cada segundo o que de melhor ele pode nos oferecer, o que nem sempre significa alegria e paz. No dia em que não tiver um motivo apaixonante pra levantar da cama, quero continuar dormindo.

E sobre minha relação com o jornalismo, da próxima vez que me perguntarem sobre a profissão, tentarei responder com outra pergunta: qual a sua paixão e qual o seu sonho? Talvez isso seja mais importante!

Até domingo!

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28/08/2005 11:40
MEU AMIGO CARRO VELHOA idéia de escrever esse texto nasceu de um encontro surpresa. Na verdade, não foi exatamente um encontro. Foi quase que apenas uma troca de olhares – se é que posso falar assim. No trânsito das ruas de Natal, numa volta para casa, cruzei rapidamente com um velho amigo: um bugue Baby, que dirigi entre os meus 21 e 23 anos.

Apesar de rápido e fortuito, aquele encontro me fez viajar no tempo e lembrar de antigas e boas histórias – a maioria, hoje, divertida – do meu “relacionamento” com alguns amigos carros.

E minha relação com os carros não é de paixão, compulsão ou idolatria. Vejo os carros como máquinas que podem nos transportar de um lado para outro, sempre que quisermos. Pois é, o lado engraçado no caso dos carros velhos é que muitas vezes a decisão de ir ou não ir, normalmente, pertence a eles, e não a nós, pobres motoristas.

O meu primeiro carro comprei, com a ajuda do meu pai, quando completei os tão esperados 18 anos. Era um Fiat 147, modelo 81, com 9 anos de uso – de bastante uso. Ele era lindo: branco, com aerofólio preto e rodas de magnésio. Era tudo que um jovem como eu, de família humilde e que vivia de carona com os amigos, poderia sonhar de um carro. Era quase perfeito!

O primeiro desafio que tive com meu “carro novo” foi fazê-lo andar. Não por falta de motor ou de problemas mecânicos, mas por pura falta de dinheiro pra comprar gasolina. Qualquer festa mais distante era sinônimo de vaquinha entre os colegas.

Uma outra curiosidade em torno desse carro é que ele tinha um nome. Era conhecido por Salomão - graças a um adesivo enorme no vidro traseiro com o nome do candidato ao governo do Estado, pelo PT. Salomão foi para mim, como todo primeiro carro, uma mão na roda. Além de me levar para onde “queríamos” ir, foi também meu cúmplice em várias histórias e namoros.

As mais picantes são segredo nosso, mas pelo menos duas mais engraçadas posso contar aqui. Foi nelas que descobri e confirmei a aversão de Salomão a água.
Depois de muita paquera, um dia consegui namorar uma menina que morava em Ponta Negra, em Natal. Na primeira vez que saímos juntos, fomos a uma festa de São João, não muito longe da casa dela. Como sempre acontece no mês de junho, a cidade estava sob chuvas. Voltando, pra deixá-la em casa, nos vimos dentro de uma pequena lagoa. Desesperado, pisei no acelerador e o coitado do Salomão não resistiu. O motor parou e ficamos com água na altura das portas. Terminamos a noite, eu e a ex-namorada, empurrando Salomão pra um lugar seco. Descobri, também nessa noite, o nome de uma peça naquele carro da qual jamais me esqueceria: o distribuidor, que nunca podia ver água.

Noutra noite, eu e o amigo Joaquim saímos com duas meninas pra namorar em Ponta Negra. No meio do bem-bom, uma goteira acabou com a festa do casal que estava no banco de trás. Rimos bastante do episódio e trocamos Salomão por uma barzinho mais enxuto.

O Baby foi meu quarto carro. Montado sobre um chassi de uma brasília velha, o bugue vermelho era uma coleção de coisas com defeito. Passava mais tempo nas mãos dos mecânicos do que nas minhas. Ele não tinha limpador de pára-brisa, só um farol funcionava, os pneus eram mais carecas do que sou hoje e o banco do passageiro era solto - nas arrancadas ele ia pra trás e nos freios ia pra frente.

Fora os inúmeros pregos, há uma situação que não posso deixar de contar. Uma vez, quando estávamos em cima de um viaduto, o capuz da frente, simplesmente, abriu num solavanco, colando no pára-brisa. O detalhe é que minha sogra ia ao meu lado e imaginem o susto dela quando, de repente, tudo na frente ficou vermelho.

Meus carros hoje não são tão velhos quanto Salomão ou o Baby, mas não sou mais feliz por causa disso. A felicidade, certamente, não está nos carros novos ou naquilo que de melhor podemos comprar. Talvez, a felicidade que tanto buscamos esteja, de fato, nas boas histórias que a vida nos proporciona.

Até domingo!

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21/08/2005 14:14
SOMOS TODOS HONESTOS?
Não fui ao dicionário buscar o significado da palavra honesto. Tentei encontrar em minhas reflexões a resposta. Refletindo, descobri que é mais fácil dizer o que é ser desonesto. O primeiro sinônimo que vem a cabeça para o adjetivo é ladrão. Mas há também outros: trapaceiro, trambiqueiro, bandido, larápio e a palavra mais ouvida nos últimos tempos – corrupto.

O curioso é que fico com a impressão de que o honesto não é, necessariamente, o contrário do desonesto. Por que falar sobre isso hoje? Porque como grande parte da população brasileira, surpreendi-me e choquei-me com as denúncias e os indícios de desonestidade que envolvem o PT e, de raspão, o presidente Lula, nas últimas semanas.

Surpreendi-me porque imaginava que o PT fosse diferente do que estamos acostumados. Havia uma aura de esperança que foi quebrada. Choquei-me porque percebi que somos todos iguais. Indignamos-nos com as denúncias de caixa dois. Revoltamos-nos com os indícios de propina e sonegação. Ficamos irados com a compra de votos dos parlamentares. Excomungamos os apadrinhamentos nas nomeações de cargos públicos. A pergunta é: por quê?

Sem querer tirar a culpa dos que foram pegos com a mão na botija ou daqueles que diariamente se safam sem arranhões. Voltemos a primeira reflexão: somos todos honestos?

Gostaria de trazer essa reflexão para o nosso comportamento diário. Em nossos gestos, atitudes e comportamentos, será que somos honestos o tempo todo? Quando damos dez reais ao guarda de trânsito para nos livrar da multa, mantemos nossa honestidade? Somos honestos quando colamos na prova? E quando ganhamos de presente aquele cobiçado emprego público graças ao poder do parente importante, deixando para trás pessoas mais preparadas e merecedoras do cargo? E por falar em emprego público, há honestidade em receber e não trabalhar? E quando comemos e bebemos no supermercado deixando a embalagem vazia num canto escondido? E furando a fila do banco? Somos também honestos quando abrimos a mala do carro, com o som nas alturas, perturbando todo mundo? Há honestidade quando costumeiramente atrasamos o salário dos nossos empregados? Somos honestos ao jogar lixo pela janela do carro? Algum honesto já estacionou o carro em vaga de deficiente? Dirigir sem ter ainda dezoito anos é honesto? E ultrapassar o sinal vermelho? É possível ser honesto traindo quem nos ama? E quando, em nome do empreendedorismo, invadimos, desmatamos e ocupamos áreas de preservação?

Daria até para parafrasear Jesus. Quem for honesto de verdade que jogue a primeira pedra. Acho que somos, ao que parece, é meio-honestos! Existe isso?

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15/08/2005 15:48
ONDE QUERO CHEGAR?
O texto que escrevo hoje é parte das reflexões que comecei há uma semana aqui no blog. Ele diz respeito às nossas tomadas de decisão. E começo essa reflexão dividindo-a com você com a seguinte pergunta: como e onde você pretende estar daqui a exatos cinco anos?

Faço essa pergunta a mim mesmo e a muitos amigos porque faz algum tempo que acredito que sabendo onde queremos chegar, temos 90% do caminho percorrido. Em outras palavras, quero dizer que quando traçamos objetivos na vida é muito mais fácil e seguro escolhermos os nossos caminhos.

Quando ainda era criança, e morava em Angicos, decidi que deveria estudar em Natal. Tentei, com tudo que podia, convencer meus pais a irem comigo. Meu pai não topou mudar de vida. E, mesmo abrindo mão do conforto e da comodidade de morar com os meus velhos - sendo paparicado todos os dias - fui embora em busca do meu objetivo. Estimulado por eles, fui morar com uma das minha irmãs e sua família quando tinha 13 anos - convivendo com um universo inteiramente diferente daquele em que vivia.

Com pouco tempo que estava em Natal decidi que seria médico, atendendo um sonho antigo do meu pai. Fiz do sonho dele o meu. Meta definida, o caminho era estudar. No ano do vestibular, morava sozinho com um irmão mais velho e era totalmente responsável por mim mesmo. Fazia meus horários, preparava minha comida, ia pra todas as festas, mas estudava feito um doido - sete horas por dia, mais as quatro em sala de aula.

Aprendi também nesse ano a importância de se ter um "plano B". Um dia antes da inscrição do vestibular, inventei de assistir uma aula de anatomia com uma colega que fazia medicina. Quando vi um cadáver sendo escalpado, desisti de tudo ali mesmo. E agora José? Vou fazer o quê? Inscrevi-me em jornalismo, afinal sempre fiz jornais no colégio, mas não sabia nada da profissão.

Com 18 anos, no segundo ano de faculdade e sendo obrigado a dividir o apartamento com meu irmão, assumi uma desafiante meta. Decidi que teria minha própria casa dali a três anos. O detalhe é que somente estagiava e queria ter ainda um carro e uma linha telefônica (na época era uma propriedade) até o fim dos 21. Para minha própria surpresa, consegui tudo! A custa, claro, de muita perseverança e esforço.

Aos 22, trabalhando como repórter de tv, levei um grande susto que me fez traçar uma outra meta na vida. O susto foi minha demissão na Tv Tropical (então afiliada da TV Manchete). A notícia de que estava desempregado pegou-me de surpresa, tirando-me o chão debaixo dos pés. A meta era a de não deixar mais nas mãos de ninguém a bússola do meu destino. Eu precisava ter o meu negócio. O susto foi em abril e a empresa estava aberta em agosto. Nasceu como uma sociedade entre três amigos e tinha como finalidade trabalhar com informações turísticas. A empresa se chmava Coinfo.

Quando estava na casa dos 25 anos e já trabalhava na TV Cabugi (afiliada Globo) - o meu último emprego - a Coinfo foi transformada em Oficina da Notícia, ganhando dois novos sócios. Nossa meta era ser a maior agência de comunicação do Estado. Em oito anos está entre as maiores do Nordeste, com quase trinta profissionais.

Lendo o que escrevi acima, alguém pode me perguntar: você conseguiu tudo que queria? Tudo que você é hoje foi planejado? A resposta é não! Muita coisa eu não conquistei e muitos sonhos não se realizaram. Grande parte do que sou também não foi planejado. A vinda de Maria Mariana, minha filha mais velha, por exemplo, não teve planejamento – só ação! O casamento estava previsto, mas foi antecipado. Sair do jornalismo diário era uma possibilidade, mas não havia sido planejada. Minha entrada na área de eventos também foi uma decisão que fugiu dos planos.

Apesar disso, continuo apostando nas metas e objetivos. Eles nos mostram o norte. Apontam-nos o caminho. Sem saber onde queremos chegar, corremos o risco de sair por aí, divagando, até encontrar um porto que nos pareça seguro. Dessa maneira, gostaria de encerrar repetindo a pergunta que fiz no início. Encontrar sua resposta não é fácil, mas ela pode fazer a diferença entre uma vida feliz ou uma vida repleta apenas de conveniências. Como e onde você pretende estar daqui a exatos cinco anos? Ou nas próximas horas?

Se já tem seus planos, ótimo! É hora de compartilhá-los com quem está a sua volta. Pois, ninguém chega a lugar algum sozinho.




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07/08/2005 09:10
Eu contra mim
Decidi escrever hoje sobre uma das minhas mais intensas reflexões: a de que sou o principal concorrente de mim mesmo. E o mais curioso é que raramente admitia isso.

Depois de vários erros e acertos nesses 33 anos é que percebo com muito mais clareza essa competição interior. Minha vida é nesse momento a resposta às decisões que tomei ontem ou até num segundo atrás. Somos, mais do que qualquer coisa, resultado do nosso livre arbítrio.

Acho mais fácil falar de algumas batalhas que perdi, e perco, para mim mesmo. São pequenas batalhas diárias que, no fim das contas, acabam fazendo uma diferença enorme, principalmente quando descobrimos que a vida é feita de pequenos instantes.

Não sei se vale para muita gente, mas o meu grande desafio ultimamente tem sido administrar o tempo, procurando o equilíbrio entre o que é necessário ser feito e o que de fato me dá prazer e felicidade. Concorrendo comigo mesmo, pouco ou nenhum equilíbrio tenho conseguido até agora nessa empreitada.

Antes de virar o ano, resolvi, por exemplo, que em 2005 iria dedicar-me mais na busca por uma melhor qualidade de vida – o que passaria necessariamente pela redução da carga de trabalho e inclusão de alguma atividade física à minha rotina sedentária. Até agora estou na desvantagem: mais trabalho e menos exercício.

É muito comum o tempo frio levar a culpa quando eu, preguiçosamente, não consigo acordar na hora certa. Se o carro esquenta no trânsito é porque ele não presta. Será que não dei a ele a devida manutenção? Se não encontro algo que procuro, penso logo em quem poderia ter mudado de lugar aquilo que guardei.

Meu joelho, coitado, range quando subo qualquer escada. Sei que se não fizer um bom trabalho de alongamento dos tendões vou sofrer bastante no futuro. E o que me impede de começar a trabalhar nisso agora? Eu mesmo. A minha falta de disciplina. Será que isso acontece também com você?

Mas na vida tenho tido também várias vitórias nessa minha batalha interior. Consciente disso, é nelas que busco a inspiração e a força para mudar o que posso mudar. Hoje, por exemplo, tenho que terminar um livro. Até o fim do dia estará concluído. Conseguirei? Só depende mim!

Até domingo!

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31/07/2005 07:46
HERÓIS E MITOS IMPERFEITOS<
Só ao acordar nesse domingo é que me veio o tema sobre o que escreveria no blog. Ainda no colchão, embaixo do lençol, achei que seria interessante dividir com os amigos algumas reflexões sobre os heróis das nossas vidas - e como eles são imperfeitos.

Acredito que nossos primeiros heróis são, naturalmente, nossos pais. Mais do que heróis, são verdadeiros deuses. Na fragilidade da infância, nossas vidas estão sob o seu inteiro poder. Guiamos nossos passos aonde vão os deles. O pai da gente é , normalmente, o mais forte e inteligente. Nossa mãe é sempre a mais bonita e carinhosa. Estando sempre certos, eles são a redoma que nos protege do que há de errado no mundo.

Não criamos heróis apenas quando somos crianças. À medida que crescemos, vamos aumentando nossa coleção, escolhendo os personagens que mais nos convém.. É curioso quando percebemos como são muitos!

Começamos a gostar de futebol já com os nossos craques no coração. Entre os amigos, há sempre aquele que é do peito - nosso amigo-irmão. Quando namoramos e nos apaixonamos, cada paixão é um mito. Se somos empregados, haverá um chefe herói. Se somos empresários, haverá um funcionário “modelo”. Não há cantor ou compositor igual aos nossos ídolos.

Quando temos filhos, eles são sempre os mais espertos. Aos líderes políticos, não é raro transferirmos nossa expectativa messiânica. Na religião, os heróis são muitos - variando conforme a crença de cada um.

Nossos heróis, ídolos e mitos são sempre perfeitos. Esse é um grande engano e, talvez, um dos mais repetidos ao longo das nossas vidas. Enxergamos nos heróis ou mitos, a imagem que criamos a partir das nossas próprias expectativas - algo muito parecido com as paixões. É sempre difícil perceber que por trás dessas figuras há pessoas recheadas de atributos humanos - iguais a nós mesmos.

Buscamos enxergar em nossos mitos somente o que há de belo e bom. Alguma vez você certamente já ouviu aquela frase: "fulano não era nada daquilo que eu pensava". Quando há a mitificação de personagens em nossas vidas há sempre o risco de decepção e frustração.

Ao contrário dos de Cazuza, meus heróis não morreram de overdose. Alguns morreram apenas como heróis, mas permanecem vivos. Hoje continuo criando meus heróis, mitos e ídolos, mas tentando impor-me a certeza de que eles, como eu, são repletos de defeitos. Talvez assim não me frustre tanto no futuro.

Até domingo!

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24/07/2005 20:35
AS DESPEDIDAS E AS TARDES DE DOMINGOEstou escrevendo hoje, num início de noite de domingo, depois de participar de uma bela despedida em João Pessoa. Acabo de chegar de um lugar muito especial, onde as pessoas se despedem do sol (ou do dia), às margens de um rio e ouvindo o Bolero de Ravel ao som de um solo de sax.

Comendo agulhinha frita e bebendo uma caipirosca, despedi-me do sol refletindo sobre as despedidas. Todos os dias, por diversas vezes, a gente se despede de alguém - ao sair de casa, ao deixar às crianças na escola, ao sair do trabalho e, mais numerosamente, nas dezenas de ligações telefônicas. Mas, para mim, as tardes de domingo são a cara da despedida triste.

Comecei a sentir isso quando fui morar em Natal, aos treze anos. Nas sextas-feiras, sempre que tinha dinheiro para as passagens, voltava à Angicos para rever amigos e os meus pais. Se as sextas e os sábados eram dias de reencontro e festa, os domingos já começavam tristes. Despedir-me da minha mãe era uma dor terrível, suportada por uma aposta num futuro imprevisível. E foi assim por seis anos, até a sua morte, quando eu tinha 19 anos.

Foi nessa época que descobri a despedida da paixão. Comecei a namorar uma menina que morava em João Pessoa – a mesma distância de Angicos. E a história praticamente se repetia. Nas sextas-feiras, uma deliciosa ansiedade para encontrar a amada. Nas tardes de domingo, o choro da despedida. E foi assim por cinco anos, até casarmos e irmos morar juntos, quando eu tinha 24 anos.

E fico pensando no enfermo que, nas tardes do domingo, despede-se de suas visitas no leito do hospital. Ele pode lamentar a saída dos visitantes ou agradecer a sua vinda. Fico imaginando a alegria do torcedor que, na tarde do domingo, se despede do campo vendo seu time ganhar. E do torcedor que se despede do time que perdeu a partida e volta triste para casa.

Além da despedida, a tarde do domingo acaba sendo especial porque, como todas as tardes, ela é fronteira entre o dia e a noite. É um momento da renovação. Como diz meu filho João, é a hora do sol dormir e da lua acordar.

Na tarde do domingo encerra-se uma semana e começa-se outra. Será sempre o fim e o começo de um novo ciclo. Até domingo!

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